Estudo publicado na revista Nature Communications mostra que o precursor metabólico NMN restaura a função mitocondrial e reduz a degeneração da retina em modelos de retinose pigmentar

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Uma das principais causas de cegueira hereditária no mundo pode estar mais próxima de um tratamento eficaz. Um estudo internacional publicado neste sábado (27), na revista científica Nature Communications, revelou que a molécula nicotinamida mononucleotídeo (NMN), precursora do composto energético NAD+, foi capaz de retardar significativamente a degeneração da retina em modelos experimentais de retinose pigmentar (RP), uma doença genética que afeta mais de 2,5 milhões de pessoas em todo o planeta.
A pesquisa, intitulada “NAD+ modulates mitochondrial vulnerability in MERTK-associated models of retinitis pigmentosa”, foi conduzida por cientistas da Southern Medical University, do Zhongshan Ophthalmic Center da Sun Yat-sen University e da Shanghai Jiao Tong University School of Medicine, todas na China. O trabalho é liderado pelos pesquisadores Lujia Feng, Yuwen Wen, Ting Zhang, Wenru Su, Wei Chi, Yehong Zhuo e Shaochong Zhang.
Segundo os autores, o estudo oferece as primeiras evidências robustas de que as alterações mitocondriais podem ser um dos principais motores da progressão da retinose pigmentar.
“Nossos resultados demonstram, pela primeira vez, que as anormalidades mitocondriais podem ser os fatores desencadeadores da retinose pigmentar e que o NMN possui efeitos terapêuticos importantes”, afirmam os pesquisadores no artigo.
Uma doença sem cura
A retinose pigmentar é um grupo de doenças degenerativas hereditárias caracterizadas pela perda progressiva dos fotorreceptores e do epitélio pigmentar da retina (RPE), estruturas essenciais para a visão. Com o avanço da doença, os pacientes apresentam diminuição do campo visual, dificuldade para enxergar à noite e, em muitos casos, evoluem para a cegueira.
Apesar de mais de 100 genes já terem sido associados à doença, ainda não existem tratamentos capazes de impedir sua progressão.
O papel das “usinas de energia” das células
A investigação concentrou-se nas mitocôndrias, organelas responsáveis pela produção de energia celular. Utilizando técnicas de sequenciamento de RNA de célula única, microscopia eletrônica e análises metabólicas, os pesquisadores observaram que células da retina de ratos portadores de uma mutação no gene MERTK apresentavam danos mitocondriais precoces.
As alterações incluíam:
- redução da produção de ATP, a principal molécula de energia celular;
- aumento de espécies reativas de oxigênio (ROS);
- diminuição do potencial da membrana mitocondrial;
- perda progressiva da estrutura interna das mitocôndrias.
Os pesquisadores também identificaram uma queda significativa nos níveis de NAD+, molécula indispensável para o metabolismo energético e para a manutenção da função mitocondrial.
A molécula que restaurou a retina
Para verificar se a reposição de NAD+ poderia proteger a retina, os cientistas administraram NMN, um precursor natural dessa molécula, em ratos com retinose pigmentar.
Os resultados surpreenderam a equipe.
Após quatro semanas de tratamento, os animais apresentaram: aumento dos níveis de NAD+; recuperação da produção de ATP; redução do estresse oxidativo; preservação da espessura da retina; menor perda de células fotorreceptoras e melhora significativa da função visual medida por eletrorretinografia.
Além disso, as imagens obtidas por tomografia de coerência óptica mostraram que a degeneração retinal foi retardada de maneira progressiva à medida que o tratamento se prolongava.
“O NMN demonstrou uma potência inesperada na redução das perturbações metabólicas da retinose pigmentar e mostrou grande potencial terapêutico”, destacam os autores.
Descoberta de um novo alvo terapêutico
A equipe também identificou a participação decisiva do gene GAPDH, conhecido por seu papel no metabolismo energético.

Os experimentos mostraram que o NMN aumentou a expressão desse gene e que sua ativação foi essencial para restaurar a função das mitocôndrias e impedir a degeneração da retina.
Quando a atividade de GAPDH foi bloqueada, os benefícios do NMN praticamente desapareceram.
Essa descoberta abre uma nova frente de investigação.
“Nossos achados destacam a via de sinalização NAD+/GAPDH como um alvo terapêutico promissor para o tratamento da retinose pigmentar”, concluem os pesquisadores.
Um caminho para futuras terapias
Embora os resultados tenham sido obtidos em modelos animais e em células humanas cultivadas em laboratório, os autores acreditam que a descoberta estabelece uma base sólida para o desenvolvimento de futuras terapias contra doenças degenerativas da retina.
Eles ressaltam, entretanto, que estudos clínicos em seres humanos ainda serão necessários para determinar a segurança, a eficácia e as doses ideais do NMN.
Para milhões de pessoas que convivem com o risco da perda progressiva da visão, o estudo representa uma esperança concreta de que a compreensão do metabolismo celular possa, no futuro, transformar uma doença até hoje incurável em uma condição tratável.
Referência
Feng, L., Wen, Y., Zhang, T. et al. NAD+ modula a vulnerabilidade mitocondrial em modelos de retinite pigmentosa associados ao MERTK. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-74400-6